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Festa da Lapinha - Reis
07-dez-2009
Os reisados são festas que vieram para o Brasil através dos portugueses e que marcam o fim do ciclo de festas natalinas, sendo dedicadas aos Três Reis Magos que visitam o Deus Menino no dia do seu nascimento. Em Salvador, terra onde a religiosidade transborda, seja através do candomblé ou do catolicismo, não poderia faltar no calendário a Festa de Reis que acontece no bairro da Lapinha. Iniciada por um tríduo preparatório, a festa tem o seu ápice no dia 5 de janeiro, quando ocorre o desfile dos Ternos de Reis que vêm de diversos locais da cidade.
Devidamente armados com fantasias e instrumentos, fazendo representações dos Reis Magos e outras personagens através de música, dança e versos, os ternos encantam a população que enche o Largo da Lapinha e seus arredores. Um dos ternos mais tradicionais é o Rosa Menina que vem do bairro de Pernambués. Fundado em 1945, o terno Rosa Menina é hoje o mais antigo da cidade, tendo a frente Seo Silvano, um dos seus fundadores. A missa principal, celebrada em geral pelo Arcebispo da cidade, acontece na Igreja da Lapinha, onde é possível admirar um maravilhoso presépio em tamanho natural. Complementando a festa não poderiam faltar as barracas de comidas, bebidas e jogos que dão o tom profano.

A FESTA DE REIS E A ESTRELA DE BELÉM
Por Waldir Freitas Oliveira

Descrevendo, há cem anos, uma véspera de Reis na Bahia, escreveu Melo Morais Filho, que ali, "os presepes, os bailes de pastoras e os descantes de Reis" se prolongavam "até o carnaval". Disse, ainda "dessa noite em diante, os cantadores de Reis percorrem a cidade cantando versos de memória e de longa data".

Sua descrição é rica em detalhes e inclui letras das cantigas entoadas pelos participantes dos ranchos - "moças e rapazes de distinção... negros e pardos... [que] ao fogo dos archotes, ao som das flautas e violões, dos cavaquinhos e pandeiros, das cantorias e castanholas, dirigem-se ao presepe da Lapinha, às casas conhecidas em que se festeja o Natal ou tiram Reis à aventura do acaso". Informa, então, que "a partir das oito horas começam a desfilar os primeiros bandos... [e] embora prevenidas, as casas que os têm de receber conservam a porta fechada, não obstante os dramas pastoris e as danças estarem em atividade" (1).

Em 1916, Manoel Querino também descreveu a noite de Reis na Bahia, em “A Bahia de outrora”, nela reconhecendo a ocorrência de três tipos de agrupamentos festeiros - os “ternos”, os “ranchos da burrinha” e os “ranchos do boi”, localizando-os, respectivamente, na capital, em seus arrabaldes e no sertão baiano. Não se referiu aos tipos raciais componentes desses grupos, mas a descrição feita das roupas usadas pelos pastores e pastoras, tanto quanto a menção dos instrumentos tocados pelas charangas que os acompanhavam, coincidem, em sua maior parte, com a de Melo Morais Filho. Registrou, ainda, o fato de os ternos se dirigirem, na referida noite, para a igreja da Lapinha e mencionou os ternos que conheceu - tanto os de Itapoã: o da Estrela d´ Alva, o do Sol, o do Cordeiro, o da Sereia, o das Flores, o do Gira-Sol, o da Barquinha, o da Espera, o da Esperança e o dos Pescadores, como os da capital – o do Sol, o da Terra, o da Aurora Boreal, o dos Romeiros de Belém, o dos Romeiros da Palestina, o da Rosa Menina, o da União das Flores; e mais, que a música das cantigas entoadas na noite dos Reis, era "uma inspirada composição do alferes de milícias, João da Veiga Murici, provecto professor de línguas e filosofia, e, ao mesmo tempo, competente musicista da época, bom poeta, autor de diversas obras sobre religião e língua portuguesa" (2).

Surgem, em quase todas essas cantigas, a referência aos Reis Magos, também citados na nota "A noite de Reis na Lapinha", publicada no “Diário de Notícias”, da Bahia, de 5 de janeiro de 1899, transcrita por Querino - "Figuras obrigatórias em todos os presepes, vêem-se os três magos da Selêucia e do Oriente, descalços, cobertas as frontes do pó da terra, num estábulo, depondo oferendas aos pés do filho adotivo de um carpinteiro"; e nos cantos entoados às portas das casas que serão visitadas, referências são sempre a eles feitas, como podemos ver, tanto na letra da canção transcrita por Melo Morais Filho:

“Ô de casa, nobre gente,
escutai e ouvireis,
que das bandas do Oriente
são chegados os três Reis”

como na versão registrada por Manoel Querino:

“Vinde abrir a vossa porta,
se quereis ouvir cantar;
acordai se estais dormindo,
que vos viemos festejar.

Os três reis de longas terras
vieram ver o Messias,
desejado há tanto tempo
de todas as profecias.”

Vem do Evangelho de São Mateus (Mateus 2,1-2) a mais antiga informação sobre a participação dos magos nos acontecimentos em tomo do nascimento de Cristo - dele constando a notícia de que "tendo nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes [...] uns magos vieram do oriente a Jerusalém, por terem avistado nos céus uma estrela que lhes avisara haver nascido o rei dos judeus e partido para adorá-lo". Mais ainda, a de que foram ali interrogados por Herodes, e lhe disseram que o rei dos judeus nascera em Belém, como fora "escrito pelo profeta", recebendo do tetraca da Galiléia, o pedido, caso o encontrassem, de lhe comunicar, por desejar também ir adorá-lo.

Existiram, realmente, no Irã, ao tempo dos Medas e dos Aquemênidas, sacerdotes de um tipo especial - os “Magos”, muito ligados ao estudo dos astros e que controlavam muitos aspectos da religião iraniana – o zoroastrismo. Foram eles mencionados, várias vezes, por Heródoto, no Primeiro Livro da sua “História”, que lhes atribuiu grande influência sobre os governantes persas, seguidores da religião fundada por Zoroastro, personagem, contudo, inexplicavelmente, por ele não mencionado em seu trabalho. Nada impede, contudo, que possamos imaginar haver sido Zoroastro, “o profeta” ao qual se referiram os magos quando de sua chegada à Judéia e o autor da profecia de dever nascer em Belém, o rei dos judeus.

A tradição cristã envolveu, porém, ao longo dos séculos, em muitas lendas, os magos que chegaram Judéia, montados em camelos ou dromedários, treze dias depois do nascimento de Jesus; entre elas a do título de reis, que, certamente, não possuíam. Também lhes atribuiu, no século VI, sem qualquer fundamento, tipos raciais diversos e os nomes pelos quais ficaram conhecidos - Melquior, Gaspar e Baltazar; um branco: representando os povos europeus, um outro, de tez morena, simbolizando os povos do Oriente, e o terceiro, um negro, apresentado como o símbolo dos povos africanos, havendo os três se submetido, por sua própria Vontade, no ato da Adoração, ao poder da Igreja; e, ainda, o papel de portadores de presentes para o recém-nascido - ouro, incenso e mirra, dando-lhes, nessa ocasião, interpretação conveniente aos seus interesses.

Uma outra referência feita à presença dos magos na Judéia, quando do nascimento de Jesus, foi feita por São João Crisóstomo, em sua “Historia Tripartita”, ao narrar que "no dia em que Cristo nasceu, estavam uns magos orando no alto de uma montanha e de repente viram que uma estrela tomava a forma de uma criança recém-nascida extremamente formosa, sobre cuja cabeça resplandecia uma cruz" e que essa estrela lhes havia falado, dizendo - "Ide à Judéia e lá o encontrareis" (3). Partiram, então, os magos, ali chegando treze dias depois do nascimento de Jesus, e, segundo Mateus, tendo sido interrogados por Herodes sobre a sua viagem e lhe revelado o seu motivo; contando, ainda, o evangelista, que quando a retomaram - "a estrela que tinham visto no oriente, [foi] adiante deles, até que se deteve sobre o lugar onde estava o menino" (Mateus, 2. 1-12).

Orígenes, grande pensador cristão, que viveu em Alexandria, no século III, disse haverem sido três, os magos, associando-os aos presentes que haviam levado para o recém-nascido. Somente, contudo, no século VI, a partir dos escritos de Cesário, bispo de Arlés, eles passaram a ser considerados reis; e, três séculos mais tarde, revelados os nomes pelos quais são conhecidos. Sendo o mais fantástico nessa estória, é que dela consta a trasladação dos seus despojos, de Milão, na Itália, para Colônia, na Alemanha, em 1168, pelo imperador Henrique IV, filho de Frederico Barba-Roxa, que anexara, então, ao Sacro Império Romano Germânico, a Lombardia; havendo essas relíquias permanecido naquela cidade alemã até os nossos dias. Conta, também que haviam sido os Reis Magos sepultados em local desconhecido, sendo encontrados, milagrosamente, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino, que os trasladou para Constantinopla; de onde teriam sido levados para Milão, pelo bispo Santo Eustórgio.

A festa dos Reis Magos aparece, no calendário cristão, como se dando a 6 de janeiro; e tomou-se, desde a Idade Média, muito popular em toda a Europa católica, tanto nos países latinos como na Alemanha, possuindo maior aceitação em Portugal e na Espanha, onde, segundo registra Mário de Andrade, eram importantes os seus festejos desde os meados do século XII ou princípios do século XIII; baseando-se, para essa sua afirmativa, na época registrada como a do surgimento do “Auto de Los Reyes Magos”, tido como "o monumento mais antigo conhecido do teatro espanhol". Devendo registrar-se ainda o fato de Gil Vicente, em Portugal, também haver escrito, em 1503, um “Auto dos Reis Magos” (4).

Da península Ibérica chegaram esses festejos ao Brasil, aqui se expressando, com enorme vigor, nos reisados e bailes pastoris descritos, desde o século XVIII, por vários cronistas, entre os quais Nuno Marques Pereira, em seu “Compêndio Narrativo do Peregrino da América” (Lisboa, 1728), havendo sido aqui registrados, desde os fins do século XIX, os textos das suas cantigas, inicialmente, por Sílvio Romero, em “Cantos populares do Brasil” (Lisboa, 1883), depois, na Bahia, por MeIo Morais Filho, em “Festas e tradições populares do Brasil” (1901), Manoel Querino, em “Bailes Pastoris” (1914), José Nascimento de Almeida Prado, em “Baile Pastoril no sertão da Bahia” (1951) e Carlos Ott, em “Os bailes pastoris da Bahia”, tendo sido esses três últimos trabalhos publicados pela Livraria Progresso Editora, em 1957, com apresentação de Pinto de Aguiar, sob o título – “Bailes Pastoris”(5). Sem que devamos esquecer as pesquisas realizadas fora da Bahia, sobre reisados e bailes pastoris, tanto por Pereira da Costa, em Pernambuco, em “Folclore Pernambucano” (1908), como por Mário de Andrade, em “Danças dramáticas do Brasil” (6).

No momento, portanto, em que se pretende reanimar, na Bahia, a tradição dos ternos de Reis e bailes pastoris, revivendo sua história, contada, no passado, tanto pelos autores citados, como por Antônio Viana e Nelson de Araújo e, nos tempos atuais, por Hildegardes Viana, oportuno será lembrar que os personagens centrais desses festejos - os Reis Magos, foram, a partir de um certo momento, transformados em mito, por necessidade política da Igreja de Roma, mas se mantiveram, apesar disso, perfeitamente integrados ao folclore nacional. Ainda que haja afirmado Mário de Andrade, que nenhum dos pastoris brasileiros, "dentre os que nos foram preservados, se conserva dentro do espírito católico e nem mesmo da religiosidade popular"; o que o levou a perguntar - "Onde está o nascimento de Jesus nisto tudo?...". E depois de haver informado ter se iniciado a profanização da festa de Reis, na península Ibérica, antes da sua chegada ao Brasil, cita opinião expressa, em 1926, por Belmut Hatzfeld, sobre o poeta espanhol Juan de la Encina (1469-1529), quando afirma que em suas éclogas e seus “villancicos”, teria ele feito "saltar para fora do estábulo de Belém os pastores das primitivas representações de Natal, lhes botando na boca, além das falas sobre o nascimento divino, outras de ventura ou mal de amor" (7).

Quanto à "estrela de Belém", transformada, muitas vezes, em cometa, nos presépios e em obras de arte de diversas épocas, apareceu, provavelmente, pela primeira vez, sob a forma de uma estrela cadente com longa cauda luminosa, em "Adoração dos magos", afresco pintado, em 1304, na Capela Arena, em Pádua, por Giotto, que talvez haja nele reproduzido a visão que teria tido, em 1301, do cometa de Halley; devendo também lembrar-nos haver sido Orígenes quem sugeriu haver sido um cometa, a estrela avistada pelos magos.

Hoje, os astrônomos que acreditam haver realmente surgido, naquela ocasião, uma estrela muito brilhante nos céus do Oriente, supõem ter sido ela uma “supernova” ou uma nova, estrelas que aparecem depois de grandes explosões no espaço e brilham somente por dias ou semanas, antes de desaparecer, explodindo como se fossem bombas termonucleares gigantes; sem que a admitam, como um cometa, sobre o qual teriam, por certo, informações sobre sua passagem pelos céus da Judéia, quando do nascimento de Cristo.

NOTAS
I MORAIS FILHO, MeIo. "A véspera de Reis (Bahia)" in Festas e tradições populares do
Brasil. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia., 3a. edição, 1946, pp. 79-95.
2 QUERINO, Manoel. A Bahia de outrora. 2a. edição aumentada. Bahia: Livraria Econômica,
1922, pp.19/32.
3 VORÁGINE, Santiago de Ia. La leyenda dorada. Tomo I. Madrid: Alianza Editorial,1987,
p. 93.
4 ANDRADE, Mário de. Danças dramáticas do Brasil. 2a. edição. Belo Horizonte: Ed.
Itatiaia; Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-Memória. 1982, 10 tomo, p. 345.
5 MORAIS FILHO, Melo."Natal, Ano Bom e Reis na Bahia" in Bailes Pastoris na Bahia.
Bahia: Livraria Progresso Editora, 1957. 6 ANDRADE, Mário de. Opus cit., pp 339-383. 7 Idem., p.351.


Fonte: Oliveira, Waldir Freitas, Santos e Festas de Santos na Bahia – Salvador. Conselho Estadual de Cultura, 2005.
 
Na Mídia
:: HOJE TEM FESTA DE REIS, A TARDE, 05.01.1995
:: MISSA NA LAPINHA PARA MANTER OS TERNOS NA RUA, A TARDE, 31.08.1983, cad 2, p.1
:: QUEM NÃO VAI À LAPINHA, BAHIA HOJE, 06.01.1995, Amélia Vieira
:: TERNOS DE REIS PROMOVEM ESPETÁCULO NA LAPINHA, CORREIO DA BAHIA, 06.01.2006, Festas e lavagens, p.5,
:: FESTEJOS TÊM ORIGEM EUROPÉIA, CORREIO DA BAHIA, 26.12.1997, cad 2, p.4
:: TERNOS E RANCHOS ESTÃO VIVOS, SIM, E QUEREM GANHA O MUNDO, JORNAL DA BAHIA, 03.10.1978. cad 2, p.1
:: ESTRÊLA DO ORIENTE LEVA TERNOS À LAPINHA DESDE O TEMPO DO BRASIL COLÔNIA, JORNAL DA BAHIA, 05.01.196
:: AUSÊNCIA DO PADRE PINTO ESVAZIA A FESTA DA LAPINHA, TRIBUNA DA BAHIA, 04.01.2007, Salvador, p.8, Cat
:: AS FESTAS DE REIS REVIVERAM O ANTIGO ESPLENDOR, A TARDE, 06.01.1949
:: AS FESTAS DE REIS, A TARDE, 31.02.1940
:: RURAL E URBANO NA LAPINHA, BAHIA HOJE, 06.01.1996
:: O MILAGRE DE BOTAR O TERNO NA RUA, JORNAL DA BAHIA, 04 e 05.01.1987, cad 1, p.10, Nelson Rios
:: FESTAS DE REIS - OS TERNOS MANTÊM A PUREZA, JORNAL DA BAHIA, 06.01.1979, cad 2, p.1
:: A VINGANÇA DE PADRE PINTO, TRIBUNA DA BAHIA, 11.01.2007, Salvador, p.8, Jolivaldo Freitas
:: TERNO DAS CAMPONESAS: AS PASTORINHAS DA SAUDADE, A TARDE, 06.01.1978, Leopoldo Alves
:: DISCRIÇÃO NO FIM DA FESTA DA LAPINHA, A TARDE, 07.01.2006, Local, p.6, Cleidiana Ramos
:: TERNOS E RANCHOS SAIRÃO: TRADIÇÃO NÃO MORRE NA BAHIA, A TARDE, 29.12.1970, cad 2, p.13, Antônio Mont

:: LAPINHA, ONTEM E HOJE, JORNAL DA BAHIA, 05 e 06.01.1969, cad 2, p.1, Elza Gracio Ramos

 

 

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