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Festa ao Senhor Bom Jesus dos Navegantes
07-dez-2009
A origem da procissão marítima do Bom Jesus dos Navegantes, como a de outras festas populares, é imprecisa. Acredita-se que remonta ao século XVIII, época em que o tráfico de escravos negros vindos da África e o comércio marítimo com o oriente eram intensos. Os infortúnios das longas viagens, como as doenças e os ataques dos navios piratas, levaram os marinheiros a buscar a proteção divina do Bom Jesus dos Navegantes, dando início a uma das mais tradicionais festas religiosas da Bahia.

A celebração – cujos preparativos têm início no dia 27 de dezembro, finalizando no primeiro domingo após o dia primeiro de janeiro com uma missa e procissão terrestre – tem seu ápice no primeiro dia do Ano Novo, quando ocorre a procissão marítima. Toda a encenação, envolvendo personagens e locais sagrados, relembra os Dramas Litúrgicos, iniciados na Idade Média. Particularmente na Festa do Bom Jesus dos Navegantes identificamos duas personagens – Jesus e Maria – representadas por três imagens distintas: O Bom Jesus dos Navegantes, Nossa Senhora da Boa Viagem e Nossa Senhora da Conceição da Praia.
O culto envolve ainda duas importantes igrejas, a Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia e a Igreja da Boa Viagem, além da Galeota Gratidão do Povo, que faz o percurso marítimo transportando a imagem do Bom Jesus.

HISTÓRICO DA FESTA

Até meados do século XIX era utilizada a galeota que pertencia ao Capitão Antônio Cavalcanti Pompeu de Albuquerque para a realização da procissão marítima. A partir daí até o ano de 1890 era utilizada a Galeota Imperial, cedida pelo Estado, para o cortejo. Durante a passagem do cortejo pelo Forte São Marcelo, eram disparados 21 tiros de festim dos seus canhões.

1890 – Com o fim do Império no ano anterior e a consequente separação entre a Igreja e o Estado, a festa perde parte do apoio oficial. Os tiros de canhões foram substituídos por dois tiros de projéteis da artilharia que quase atingiram um navio norueguês. Este incidente provocou o rompimento da Marinha com a festa e o fim da utilização da Galeota oficial.

1891 – O comerciante Agostinho Dias Lima providencia um escaler para fazer o cortejo marítimo, impedindo desta forma a interrupção da tradição. Neste mesmo ano, operários se unem para construir uma galeota exclusiva num estaleiro na Praia do Bogari. O carpinteiro Manoel Dias trabalhou na modelagem da nova galeota sem receber nenhum centavo. Em 27 de dezembro de 1891, a nova galeota, batizada de “Gratidão do Povo”, recebe as bênçãos do Cônego Ludgero do Humildes Pacheco.

1892 – A Galeota Gratidão do Povo realiza sua primeira Procissão.

1964 – A Marinha volta a participar da Festa do Bom Jesus dos Navegantes fazendo a escolta da Galeota Gratidão do Povo.

1972 – A Galeota Gratidão do Povo foi atingida por um foguete que provocou um rombo no seu casco. Os 14 ocupantes foram transferidos junto com a imagem do Bom Jesus para outra embarcação e a Galeota foi rebocada até a praia.


CALENDÁRIO E ROTEIRO DA FESTA

27/12
5 horas – Alvorada de fogos anuncia o início da Festa ao Bom Jesus dos Navegantes e a Nossa Senhora da Boa Viagem.
20 horas - Hasteamento da Bandeira, lavagem da igreja e Missa para os barraqueiros.

28/12
20 horas – Primeira Celebração do Tríduo.

29/12
20 horas – Segunda celebração do Tríduo.

30/12
20 horas – Terceira celebração do Tríduo.
- Festejos em homenagem aos barraqueiros

31/12
14 horas – Desfile de grupos musicais convidando para a missa celebrada pelo Cardeal.
17 horas – As imagens do Bom Jesus e de Nossa Senhora da Boa Viagem seguem em direção ao mar. A primeira vai na Galeota e a segunda volta para a Igreja da Boa Viagem. A imagem do Bom Jesus dos Navegantes segue em procissão marítima (ou por terra) rumo à Basílica da Conceição da Praia, onde se encontra com a imagem de Nossa Senhora da Conceição da Praia para juntos pernoitarem.

01/01
8 horas – Inicia-se a celebração eucarística na Basílica da Conceição da Praia.
9 horas – Celebração eucarística na Igreja da Boa Viagem.
10 horas – Celebração na Igreja da Boa Viagem - Após a Missa as imagens saem em procissão até a Capitania dos Portos. A imagem do Bom Jesus se despede da imagem de Nossa Senhora. Inicia-se a procissão marítima em direção ao Porto da Barra de onde retornam em direção à Boa Viagem, parando no segundo armazém da CODEBA para receber homenagens dos portuários.
12:30 – A imagem do Bom Jesus chega à Boa Viagem, sendo recebida pela imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. As duas retornam para a Igreja.
15 horas – A Igreja da Boa Viagem é fechada e se inicia a festa profana

Primeiro domingo após o dia primeiro
16 horas – Celebração eucarística na Igreja da Boa Viagem.
17:30 – Procissão terrestre.


CURIOSIDADES

Em 1892, ano seguinte à negativa do governo em ceder a galeota oficial para a festa, esta embarcação teria desaparecido afundada na Baía de Todos os Santos. Os fiéis afirmaram ter sido obra de Deus.

Em 1975 a missa festiva da Igreja da Boa Viagem foi cancelada pelo Padre Hugo Rossini, alegando que o samba que vinha das barracas montadas no largo impediam a concentração necessária para o culto.

Segundo a tradição, o desembarque do Bom Jesus na Praia da Boa Viagem deve acontecer ao meio dia em ponto.

As condições do mar, no momento da procissão marítima, podem alterar o roteiro do percurso. Algumas vezes a Galeota Gratidão do Povo faz o retorno no Farol da Barra, outras vezes, no Praia do Porto. Pelo menos três vezes a procissão marítima foi cancelada devido ao mau tempo e a imagem foi conduzida por terra.

IGREJA DE NOSSA SENHORA DA BOA VIAGEM
A Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, construída no estilo barroco português, está localizada no Largo da Boa Viagem e foi construída por volta de 1712, conforme dados do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A origem da igreja tem informações imprecisas. Segundo o historiador Cid Teixeira, as terras ao redor teriam sido doadas pelo primeiro governador a Garcia D’ Avila, almoxarife das obras da cidade, e permutadas com os monges de São Bento. A igreja teria surgido na metade do século XVIII, construída pelos frades franciscanos “para tomar o lugar de capela doada por um certo Lourenço Maria”. Mas conforme relata a arquidiocese de Salvador, “Em 19 de novembro de 1710, Dª Lourença Maria, proprietária das terras de Itapagipe de baixo e que tinha como filha Ana Pereira de Negreiros, doou, através de escritura, aos Franciscanos da Bahia, uma grande área de terra. Como recompensa pela doação, Dª Lourença Maria exigiu da Ordem Franciscana a celebração de cinco missas anuais, sendo três para si e duas para sua filha Ana Pereira de Negreiros”.

Sua fachada voltada para o mar, apresenta uma única torre e é revestida de azulejos pérola nacarados, de origem portuguesa. Destacam-se os pilares em pedra e, em seu frontispício, um painel em azulejos azuis trabalhados com as Armas do Reino. A descrição feita por Paulo Ormido D. de Azevedo, historiador, relata que a igreja foi originalmente feita de uma única nave com corredores laterais e tribunas superpostas. No início do século XX, foi transformada em igreja de três naves com a manutenção das tribunas. O altar-mor e altares colaterais situados no ângulo do arco cruzeiro com a nave são barrocos, estilo D. João VI. A reforma sofrida pelo templo sacrificou parte da nave e dos azulejos que decoravam as paredes. Restaram dois painéis junto à porta principal que narram sucessos trágico-marítmos atribuídos a milagres de Nossa Senhora da Boa Viagem.

A igreja possui também uma única torre, situada ao seu lado esquerdo e revestida de azulejos portugueses de cores azul e marfim, com quatro sinos, sendo o mais antigo deles datado de 1810 (século XIX). Uma grande porta de jacarandá dá acesso ao seu interior. O piso é de mármore cinza. No Altar-Mor, todo em talha dourada à folha de ouro, destacam-se na parte superior a singular imagem de Nosso Senhor Bom Jesus dos Navegantes e, abaixo desta, a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem. Já foram acolhidas na igreja, em altares menores, as imagens de Nossa Senhora das Necessidades e a de São Gonçalo. Hoje, a igreja preserva quatro imagens barrocas, de N. S. da Boa Viagem, Bom Jesus dos Navegantes, N. S. da Natividade e São Sebastião. A paróquia da Boa Viagem também conta com uma devoção fundada em 1892. No dia primeiro de janeiro celebra-se na Igreja da Nossa Senhora da Boa Viagem a festa de Bom Jesus dos Navegantes, com procissão marítima e entrega de presentes pelos pescadores na Galeota do Senhor dos Navegantes.


IGREJA BASÍLICA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DA PRAIA
Situa-se a igreja próxima do porto, no sopé da Montanha onde nasce uma das mais antigas ladeiras de acesso à cidade alta. O edifício está engastado na rocha viva. Sua vizinhança é constituída por altos sobrados do século passado, de utilização mista: comercial e residencial. A igreja integra o sítio da Conceição tombado pelo IPHAN (GP-1), e a encosta é protegida pelo art. 113 da Lei Municipal nº 2.403 de 23.08.1972, como zona de preservação rigorosa (GP-1). Edifício de elevado valor monumental. A construção compreende, além da igreja, dois corpos laterais que abrigam atividades da Irmandade e que se separam da igreja por corredores longitudinais. O corredor esquerdo conduz a um pátio com chafariz, onde nasce larga escadaria de mármore que leva à sala dos Irmãos. As galerias cegas sobre os corredores laterais da nave, entre o térreo e o primeiro andar, são um resíduo dos trifórios das igrejas medievais. O teto da nave e da capela-mor são de J. Joaquim da Rocha (1772/73). Destaca-se ainda o retábulo do altar-mor de João Moreira do Espírito Santo (1765/73). Como entalhadores, trabalharam no séc. XIX: Cândido Alves de Souza, Goldino Francisco Borges e Vitoriano dos Anjos (1834/35). Possui na ante-sacristia azulejos tipo "grinalda" (séc. XVIII), e na sacristia, azulejos de 1860. Na sacristia existe belo lavabo em mármore com bacia em concha. Dentre a imaginária, destaca-se: imagem de N.S. da Conceição, de Domingos Pereira Baião (1855).

Igreja pré-fabricada em Portugal, com caracteres da arquitetura do Alentejo, Ca 1750, sob a influência de Ludovice. O partido de três corpos separados por corredores fora adotado antes na igreja da Ordem 3ª. de S. Domingos (1731/37). Sua planta é de transição, apresentando capelas laterais, típicas do séc. XVII, e corredores com tribunas superpostas, do começo do séc. XVIII. A nave oitavada é uma transição entre a forma retangular seiscentista e a poligonal, frequente no séc. XVIII, provável influência das igrejas do Menino Deus de Lisboa (1741) e S. João Batista de C. Maior (1734). Smith vê na fachada do conjunto influência do P. de Mafra de Ludovice. Esta tendência em direção ao neo-clássico é notada em outras igrejas que receberam componentes de Lisboa, como N. S. do Pilar e, ainda sem explicação, em Santana. Seu interior é a 1ª. demonstração completa do barroco de D. João V no Brasil. O altar-mor segue a linha existente em Monte Serrat e influenciou o da S. C. de Misericórdia. O teto da nave obedece a concepção ilusionista barroca de origem italiana.

Fonte: Cd-room IPAC-BA: Inventário de proteção do acervo cultural da Bahia, Bahia, Secretaria de Cultura e Turismo.
 
Na Mídia
:: PROCISSÃO DO BOM JESUS FOI UMA FESTA NO MAR, A TARDE, 02.01.1987, cad 1, p.3
:: GALEOTA PREPARADA PARA A FESTA DA BOA VIAGEM, A TARDE, 17.12.1978
:: PROCISSÃO DO SENHOR DOS NAVEGANTES, A TARDE, 29.12.1994, cad 2, p.9
:: A GALEOTA FOI CONSTRUIDA COMO REVANCHE DOS OPERÁRIOS DO MAR, A TARDE, 31.12.1960, p.2, Hildegardes V
:: FÉ E FESTA DE VENTO EM POLPA, CORREIO DA BAHIA, 02.01.1996, Andrea Nascimento
:: MULTIDÃO FAZ FESTA PARA RECEBER A IMAGEM DO BOM JESUS, CORREIO DA BAHIA, 02.01.1996 b, Núbia Cristin
:: BOM JESUS PRECISA DE RECURSOS PARA NAVEGAR, CORREIO DA BAHIA, 02.12.2007, Especial Festas e lavagens
:: BOA VIAGEM É UMA FESTA, CORREIO DA BAHIA, 28.12.1979, Valdemir Santana
:: A GALEOTA COMPLETA MEIO SÉCULO, DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 27.12.1940
:: BOA VIAGEM, A QUE BOM JESUS PROTEGE, JORNAL DA BAHIA, 08.04.1971, cad 2, p.5
:: CRISE MARCA A FESTA DA BOA VIAGEM, JORNAL DA BAHIA, 28.12.1988, cad 1, p.9
:: MISSA DOS BARRAQUEIROS ABRE FESTA DA BOA VIAGEM, A TARDE, 23.12.1986, cad 1, p.3
:: A FESTA MAIS BONITA DO BRASIL, CORREIO DA BAHIA, 03.01.1980, Fernando Conceição
:: IRMANDADE QUER MAIS APOIO, CORREIO DA BAHIA, 29.12.1988, cad 1, p.5
:: É DIA DE OXALÁ, O MAIOR DOS ORIXÁS, JORNAL DA BAHIA, 17 e 18.12.1972
:: BAHIA VERÁ AMANHÃ FESTA QUE O TEMPO NÃO MUDOU: BOM JESUS DOS NAVEGANTES, JORNAL DA BAHIA, 31.12.1966
:: PROCISSÃO MANTÉM TRADIÇÃO E BELEZA, TRIBUNA DA BAHIA, 02.01.1995, Geraldo Bastos e Márcia Luz
:: BALBURDIA NA PROCISSÃO, A TARDE, 03.01.1957
:: PROFISSÃO DE FÉ, BAHIA HOJE, 31.12.1994, Fernando Oliveira
:: BOA VIAGEM JÁ SE PREPARA PARA OS FESTEJOS DO DIA 1º, CORREIO DA BAHIA, 13.12.1994
:: FESTEJOS DA BOA VIAGEM: TUDO PRONTO, CORREIO DA BAHIA, 30.12.1988, cad 1, p.1 e 5

:: PRONTA A GALEOTA QUE LEVA O SENHOR DOS NAVEGANTES, DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 28 e 29.12.1975, cad 1, p.3

 

 

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